domingo, 17 de janeiro de 2010

Ainda há avieiros no Tejo


"Vindos de Vieira de Leiria à procura de sustento, foram subindo o rio / vivendo nos barcos, até que..."


Por Mário Costa"

...galgaram / as margens. São uma / cultura única / no Mundo. São conhecidos / como os ciganos do rio".
«Deixa ir assim, vai devagar para a rede não prender. Leva o barco mais para aquele lado; isso, assim está bom.» Quem dita as ordens é Mário João Petinga, de 44 anos, pescador, que, de pé na popa da sua bateira, vai lançando as redes ao Tejo. Aos remos, na proa, Luís Cosme, de 50 anos, manobra com agilidade, respeitando as ordens do «lançador». Os remos entram e saem da água em ritmo compassado e vigoroso, enquanto a pequena embarcação vai descrevendo um arco perfeito, como se traçado por um compasso.
Quando a rede fica toda dentro de água, a bateira imobiliza-se. Resta esperar. Mário João acende um cigarro e deita um olhar demorado ao rio para depois sentenciar: «Aqui não vai dar nada, a fataça vem a cair. Devíamos ter feito o lance mais abaixo.» A fataça a cair significa que vem rápida demais: «Devem ter aberto alguma barragem e o rio leva muita água», explica Luís Cosme.
São os dois pescadores avieiros na aldeia palafita das Caneiras, em Santarém, embora só Mário João viva exclusivamente do que o rio dá.
Mas não são meros pescadores ou homens da borda-d’água. São herdeiros de uma cultura ancestral, única no Mundo, espalhada pelas margens do rio Tejo desde 1850. A história deste povo e destas aldeias perde-se na bruma do tempo, com muito poucos registos escritos. O que se sabe foi sendo transmitido de boca em boca.
Num ponto, todos os historiadores são unânimes: esta gente é oriunda da praia de Vieira de Leiria, na Região Centro – daí o nome de Avieiros, e foi a procura de melhor vida que os levou a procurarem sustento no rio Tejo. No Inverno, quando o mar de Vieira de Leiria se mostrava pouco generoso, famílias inteiras deslocavam-se em campanha até ao Tejo, onde em pequenos barcos pescavam sável, enguia, fataça, lampreia e robalo.
Navegavam em pequenos barcos, as bateiras, que, além de serem o principal instrumento de trabalho, eram a própria casa do pescador e da sua família: ali trabalhavam, dormiam, comiam. Era também ali, no barco, que muitas vezes nasciam e eram criados os filhos. Um mundo fechado, com regras próprias, fruto também da rejeição a que foram inicialmente votados pelos naturais daquela região.
«Vamos lá ver o que deu», diz Mário João, pondo-se de pé na bateira, ao mesmo tempo que começa a recolher as redes. Na proa, Luís começa a remar devagar, acompanhando o ritmo da recolha das redes. O barco navega agora em sentido contrário, desfazendo o arco, em direcção à bóia de sinalização que marca o início da rede. Mário João tinha razão: a espera só deu uma fataça. «Já temos almoço», diz Luís Cosme a rir, ao mesmo tempo que recolhe os remos. Com as redes recolhidas, Mário João volta a ligar o motor e manobra lentamente, sempre a olhar para o rio, como se estivesse a ler-lhe as intenções: «Vamos tentar ali mais abaixo, na ponta daquele mouchão, ali é capaz de dar», diz enquanto vira a bateira para o local escolhido. (Os mouchões são pequenas ilhas formadas por aluviões.)
Luís volta aos remos e começa nova manobra, enquanto Mário João faz novo lance. A sorte está lançada. Resta esperar para saber como vai ser a pescaria.
«Habitualmente, a pesca era feita em família, o casal ia junto para o rio. E esta tarefa, dos remos, que é pesada, era feita pelas mulheres. Enquanto o homem lançava as redes, era a mulher que manobrava o barco, que remava. Só quando era preciso é que o homem corrigia com a vara», explica Luís Cosme.
Com o fim das campanhas do sável, lampreia, robalo e enguia, os avieiros regressavam a Vieira de Leiria, muitas vezes a pé! Mas o pouco sustento do mar, que só no Verão era rentável, fazia-os regressar cada vez com mais frequência ao rio Tejo.
Talvez por isso, no seu livro Avieiros, o escritor neo-realista Alves Redol lhes chame «ciganos do rio». Mas esse nome pode também ter surgido pelo facto de os avieiros, enquanto sociedade fechada e rejeitada, terem o hábito de casar entre si, tal como fazem os ciganos. «Os avieiros casavam entre si até como forma de protecção, para se defenderem. Era uma forma de preservarem o conhecimento que tinham das artes do rio e para darem continuidade às suas tradições», explica Luís Cosme, enquanto começa a remar novamente para recolher as redes. Mário João vai puxando lentamente as artes, e desta vez o rio foi mais generoso: das redes caem mais seis fataças. O almoço está mais que garantido.
A cultura avieira teve sempre como pedra de suporte a família, não apenas o núcleo restrito, mas a família alargada, que funcionava, e funciona, como uma rede de afectos e ajuda quase auto-suficiente.
Júlia Guerra, viúva, de 83 anos, marcados pela vida dura do rio, ainda hoje se dedica a reparar as redes de pesca: «Passei toda a minha vida no rio. O meu pai era doente e não podia andar na pesca. Então, fui eu para o lugar dele, trabalhar por conta de outro. Depois, quando casei, ia para a pesca com o meu marido. Noite e dia, principalmente quando era das campanhas da lampreia, do sável.
Agora, ajudo o meu filho, reparo-lhe as redes e preparo-lhe as artes», explica num encolher de ombros. Longe vai o tempo em que Júlia Guerra, além da pesca, ainda tinha de ir vender no mercado de Santarém: «Olhe, ia daqui a pé para a cidade com uma canastra à cabeça cheia de peixe. Era uma hora para lá e outra hora para cá para poder vender o que se pescava, para arranjar uns tostões para dar de comer aos filhos. Era uma vida muito dura», recorda, pensativa.
Mas a abertura da sociedade avieira e a sua aceitação pelos outros eram inevitáveis, até porque no Ribatejo sempre se precisou de mão-de-obra para os trabalhos no campo. A pouco e pouco, foram-se integrando na região e fazendo também alguns trabalhos agrícolas, sobretudo nas culturas sazonais do milho e do tomate.
Actividades que levaram os pescadores a começarem a fixar-se ao longo das margens do Tejo. Casa Branca, Conchoso e Lezirão, no concelho da Azambuja; Palhota, no concelho do Cartaxo; Escaroupim e Muge, no concelho de Salvaterra de Magos; Caneiras, em Santarém; Patacão, em Alpiarça, e Carregado e Vila Franca de Xira são apenas alguns dos locais onde os avieiros se foram instalando. Lentamente, foram abandonando o barco onde sempre viveram e mudaram-se para barracas de lona ou caniço assentes em estacas.
Serviam para as campanhas sazonais de pesca, mas revelavam-se desadequadas quando as estadas eram prolongadas e demasiado precárias para suportar as cheias do Tejo.
Quando as condições económicas começaram a permitir, este povo, que se fez nómada por necessidade, começou a construir casas com características bem diferentes das casas ribatejanas: nasciam assim as aldeias palafitas (casas assentes em estacas elevadas), típicas da praia de Vieira de Leiria, mas ideais para protecção das cheias do Tejo e que, ao mesmo tempo, permitiam que o pescador estivesse sempre perto do barco.
«Os dados que temos dizem-nos que chegou a haver cerca de 80 assentamentos, ou aldeias, ao longo do Tejo. Imagine a vida que este rio tinha nos finais do século xix e primeira metade do século xx. A presença só começa a diminuir a partir da década de 60, com a primeira leva de emigração e com a industrialização que ocorreu junto do rio», explica às Selecções João Serrano, coordenador de um projecto ambicioso de recuperação da cultura avieira e da sua promoção a património nacional.
«Ao todo, são 39 entidades que estão envolvidas num projecto que pretende não só recuperar a cultura avieira, mas também aproveitar todo o potencial que o rio Tejo oferece para criar uma rede de oferta cultural e turística, salvaguardando património e criando riqueza», explica João Serrano.
O projecto engloba oito projectos Âncora, todos na área da recuperação do património edificado e cultural, e 48 projectos complementares, que passam pela construção de um resort de casas palafitas, oferta hoteleira, restauração, passeios de barco, roteiros pedestres nas margens. Uma oferta em rede nas duas margens, desde a aldeia da Azinhaga, na Golegã, até à marina do Parque das Nações, em Lisboa, num total de 27 milhões de euros.
Manuel João, de 41 anos, faz parte da quarta geração de avieiros nas Caneiras e é um dos investidores deste projecto: «Quero fazer um restaurante típico onde o visitante possa provar a gastronomia típica do rio, a fataça, o sável, a lampreia, o robalo, numa paisagem única neste país», diz enquanto nos mostra a fantástica vista que tem sobre o rio e onde pensa fazer uma esplanada. A paisagem é quase idílica. À frente, o rio e as suas margens, emoldurados pelos chorões, salgueiros e caniços. Em redor, o silêncio, que só é interrompido pelos barcos, pelas conversas de rua ou pelo latido dos cães.
Para o sucesso destes projectos, contribui também o facto de estas aldeias, nomeadamente as Caneiras, estarem a ser repovoadas: «Os avieiros estão a voltar à aldeia. Houve um êxodo por causa da emigração e da industrialização. As pessoas empregaram-se e voltaram costas ao rio. Agora, a crise, a necessidade de deitar mãos a outras actividades e a reforma para muitos estão a trazer as pessoas de volta à aldeia e às actividades no rio», dá conta João Serrano.
Aproxima-se a hora do almoço. Luís Cosme assume a tarefa de cozinhar-nos a fataça como só os avieiros sabem fazer e promete-nos uma surpresa. Os nossos estômagos, estimulados pelo ar do rio, mal podem esperar pela iguaria. Enquanto fazemos o compasso de espera, voltamos novamente ao rio com o Mário João Petinga. Lentamente e em ziguezague, para evitar os bancos de areia, subimos o Tejo e passamos por debaixo da Ponte Salgueiro Maia. Pouco depois, Mário João desliga o motor.
Agarra na vara e manobra o Ana Catarina por entre pedras e baixios: «O rio tem muitas surpresas, e esta é uma delas. Isto são ruínas romanas de uma aldeia que aqui existiu quando o Tejo não passava aqui, mas mais a sul.» Ficamos espantados. Mas os restos de uma mina e as paredes em redor, tudo submerso mas visível, não deixam dúvidas. São os restos de uma aldeia romana de dimensões generosas. Ficaram a descoberto depois da construção da ponte.
Regressamos a terra à procura da fataça grelhada. No pátio de casa, Luís Cosme apresenta-nos uma iguaria única: uma sopa do rio. À primeira vista, parece tratar-se de uma sopa de peixe, mas não, porque aqui o peixe é servido à parte para depois se degustar com a sopa bem temperada. Mal refeitos da surpresa, somos surpreendidos por uma fataça grelhada com uma variação de molho à espanhola (o segredo não é revelado), batata e uma bela salada. E o cenário não podia ser melhor: à beira-rio. Ah, e um bom vinho branco, produção local.
Para recuperar do almoço, fazemos uma visita pela aldeia. O Tejo pouca água leva, e a chuva teima em não cair. Nos vários ancoradouros ao longo da margem, vêem-se barcos, alguns já em fim de vida.
«Antes, quase não se viam barcos. Agora, há trinta barcos na aldeia, todos a navegarem», explica Mário João, que teimosamente vive da pesca. Mas a pesca dá para viver? «Depende do modo de vida que se pretende», responde Mário João. «Mas dá, está a voltar a dar. O Tejo está melhor. Sinal disso é começarem a aparecer as corvinas.» E os mais jovens, os que são agora a quinta geração de avieiros, começam também a olhar para o rio. Um novo ciclo se avizinha.
Entre as casas, sobressaem as mais típicas, as de madeira, assentes em colunas de cimento na sua construção palafita. No meio, a igreja, centro da religiosidade, mas também ponto de encontro da aldeia. As ruas estreitas, estão vazias. Mas por pouco tempo. Dentro em breve, a aldeia poderá começar a receber turistas para experiências únicas (ver caixa) de partilha e comunhão com uma cultura única no Mundo.
Avieiro sem alcunha não é avieiro
Uma das características mais curiosas dos avieiros é o facto de todos, sem excepção, possuírem uma alcunha desde crianças que perdura pela vida fora.
«É uma tradição que ninguém sabe explicar, mas todos temos um segundo nome pelo qual somos conhecidos pelos outros avieiros», explica Luís Cosme, ele próprio conhecido como «Cosminha».
Mário João Petinga, o paciente timoneiro que nos conduziu no Tejo, responde pelo nome de «Cientista». Já Manuel João, que sonha com o seu restaurante, foi apelidado de «Póri». E para que não restem dúvidas, são todos oriundos de vários ramos da família «Botas».
Avieiro por um dia
Um dos projectos a desenvolver nas Caneiras é um programa que leva o visitante a vestir a pele de pescador. Nem mais. As primeiras experiências já começaram e vão permitir que casais, ou grupos, possam ir para o rio pescar. São ensinadas as artes e modos de pesca, com direito a um lanche a bordo. Depois, os participantes são convidados a cozinhar eles mesmos a sua própria refeição com o peixe que tiverem apanhado. E isso pode ser feito numa praia, a bordo ou já em terra firme.
Depende do desejado. E mais tarde, caso queira, o visitante pode mesmo pernoitar na aldeia e sentir em pleno a vivência dos avieiros.

in... Reader´s Digest

sábado, 16 de janeiro de 2010

Adoro esse teu jeito


Adoro esse teu jeito
De mulher bela, sedutora
Insinuante, provocadora
Na cama desinibida
De preconceitos despida
Teu corpo rolando,
Deslizando com volúpia
Libidinoso, gostoso
Se dando, suando
A pele arrepiando
Gemendo, gritando
Implorando, saboreando
Vivendo o momento
Cabelos soltos ao vento
Arfando, fervilhando
Entoando um cântico
De amor e finalmente
Explodindo o vulcão
Que há em ti
Cuja erupção
Me dá plena satisfação
E juntos gozamos
Num incontido tesão
Esse momento
Em que tu amaste
Vibraste e me deixaste
Encantado com a tua
Sedução…
Por isso voa, eleva-te
Sempre nas asas
Da imaginação…


José C. Ramalho - Direitos de Autor Reservados / SPA

O mais longo eclipse solar


Por:Ana Taborda
15 JANEIRO 2010
Foi o primeiro eclipse solar do ano. E o mais longo a que se poderá assistir até 23 de Dezembro de 3043, calculam os astrónomos. Milhares de pessoas nos continentes africanos e asiático assistiram, hoje, ao fenómeno. A rota do eclipse atingiu o seu ponto máximo nas águas do oceano Índico – o anel de luz durou 11 minutos e oito segundos. Mais tempo só daqui a mais de mil anos, estima a NASA.
O eclipse começou em África e prosseguiu pela Ásia, onde foi visível nas Maldivas, sul da Índia, Sri Lanka e China. Centenhas de milhares de pessoas saíram às rua para ver o eclipse, alguns com óculos especiais, outros com radiografias ou sem qualquer protecção. Na China, muitos astrónomos tiraram o dia só para assistir ao fenómeno. O eclipse desta sexta-feira é classificado como anular porque, apesar da sombra da lugar ficar centrada sobre o sol – como acontece nos eclipses totais – não o encobre totalmente, gerando um formato semelhante a um anel.
O próximo eclipse do ano será no dia 11 de Julho. Mas, nesse dia, será um eclipse total: a sombra da lua cobrirá totalmente o sol.

A má medalha

A má medalha


por JOÃO MARCELINO

1. Cavaco Silva vai condecorar Santana Lopes na próxima terça-feira com a grã-cruz da Ordem de Cristo, que distingue "destacados serviços prestados ao País no exercício das funções dos cargos que exprimam a actividade dos órgãos de soberania ou na administração pública, em geral, e na magistratura e diplomacia, em particular".

É uma decisão surpreendente, em especial porque não há alguém que em Portugal se interesse pela vida pública e não saiba como o actual Presidente da República avalia, em termos políticos, o seu antigo secretário de Estado. Sobretudo como avaliou a acção governativa dele nos escassos quatro meses que se seguiram à fuga de Durão Barroso para a Comissão Europeia.
Recordo: foi um artigo publicado no Expresso ("A má moeda expulsa a boa moeda"), escrito a partir de Boliqueime, que feriu de morte a credibilidade de Santana Lopes como primeiro-ministro.
Jorge Sampaio recebeu esse texto como uma bênção e durante estes cinco anos várias vezes Santana manifestou a sua mágoa pelas consequências de tão devastadoras palavras.
Esta medalha é, portanto, um absoluto mistério, ditada por alguma coisa que não a coerência.
O que devemos pensar? Não sei. Apenas me atrevo a dizer que a política é o que é; e Cavaco parece ser, cada vez mais, um político como os outros. Uma pena.
2. O mais estranho neste caso, no entanto, é que a hipocrisia política se junte a uma visível interferência na luta eleitoral em curso no PSD.
Como se sabe, há um candidato assumido (Pedro Passos Coelho), um outro com vontade de o ser (José Pedro Aguiar-Branco), e Santana Lopes a correr por fora, tentando o "golpe" do congresso extraordinário, onde a sua oratória pudesse mudar a actual relação de forças do partido. Nada de novo quanto a Santana. Estamos perante um homem de inegável talento político, mil vezes morto e outras tantas ressuscitado, que nunca desistirá de perseguir um objectivo que se não é o seu destino é pelo menos a sua obsessão: liderar (de novo) o PPD/PSD.
Com esta medalha, que já teve três anos para atribuir (se quisesse parecer antes tão isento, tão isento, que até consegue atribuir medalhas a pessoas que não aprecia em termos de acção política), o Presidente da República coloca--se no centro da polémica no PSD. Parece querer indicar um caminho, uma preferência, ou no mínimo condicionar as condições em que se fará a sucessão de Manuela Ferreira Leite.
O álibi da condecoração que só faltava a este primeiro-ministro remeter-nos-ia para o campo da ingenuidade. Ora um ingénuo pode franquear as portas do Céu mas não conseguiria nunca entrar em Belém, naquele palácio que fica ao cimo do Páteo das Damas e onde esta semana entrou João Salgueiro…
Para que fique claro, não vá alguém tresler: ainda hoje entendo que Cavaco Silva escreveu há cinco anos um excelente artigo, corajoso, patriótico, muito importante para Portugal na altura. Essa medalha o Presidente da República tem-na, e merece-a. Esta é que muitos portugueses não entendem.
No Parlamento parece que José Sócrates quer desafiar meio mundo (o de Manuela Ferreira Leite, que não tanto o de Paulo Portas…). Mas, entretanto, o Instituto de Crédito Público divulga uma nota para as agências de rating a anunciar a intenção do Governo de corrigir o défice, de congelar os salários da função pública e de outros sacrifícios que passam pela disponibilidade do maior partido da oposição, o PSD, para um acordo de médio prazo neste sentido. Ou seja, ontem no Parlamento representou-se mais uma peça da velha revista "à portuguesa". Só pode ter sido isso…

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Castanhos são os teus olhos


Castanhos são os teus olhos,
Tua cor de tez morena;
Teus lindos cabelos pretos,
Tornam-te bela e serena.

Com teu olhar sedutor,
E tua expressão tão linda;
Teus lindos cabelos pretos,
Tornam-te mais bela ainda.

Tu inspiras tanto amor,
Pelos Poetas és cantada;
Recebes deles o aplauso,
Com sentimento aclamada.

Afrodite na Grécia antiga,
Deusa do amor e da beleza;
Por Zeus senhor do Olimpo,
Foi deposta com clareza.

Desce do teu pedestal,
Assim mesmo lhe ordenou;
E tu subiste bem alto,
Que tua beleza sublimou.

Consagrada na perfeição,
Pelos deuses glorificada;
Perfeita e majestosa,
Assim foste alcondorada.

José C. Ramalho - Direitos de Autor Reservados / SPA

Gal Costa - Nossos momentos


Gabriela - Jorge Amado




o cheiro de cravo,
 a cor de canela,
eu vim de longe
vim ver Gabriela.

A novela Gabriela, baseada no romance Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, fez o maior sucesso em 1975. Ao interpretar a heroína brejeira, que enlouquecia os homens à sua volta, Sônia Braga consolidou sua imagem como símbolo sexual no Brasil. A partir daí, os livros do escritor baiano caíram no gosto do público, direto da telinha da TV. Entre outras adaptações de suas obras, estão a novela Tieta, inspirada em Tieta do Agreste; a minissérie Teresa Batista, que atraiu as atenções para a então iniciante Patrícia França; e a trama Porto dos Milagres, baseada nos romances Mar Morto e A Descoberta da América pelos Turcos.

Saudade - Pablo Neruda


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

Pablo Neruda

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

D. João de Sousa (1), filho do grande Rui de Sousa

« Este fidalgo era muito manhoso (2) e gentil cavalgador de gineta (3). E porque a rainha D. Isabel [a Católica] ouvira dizer que era para muito, andando ele lá em Castela por embaixador, desejou ver alguma cousa que disso a certificasse. E, estando para ver correr uns touros em Arévalo, mandou-lhe dizer que se viesse de um palanque onde estava para uma casa onde ela estava com el-rei [Fernando de Aragão]; e com este recado mandou outro: que em ele atravessando a praça, soltassem o mais bravo touro. Fez-se assim; e a gente que não estava ainda recolhida acolheu-se toda aos palanques, ficando só D. João no terreiro vestido num capuz com sua espada a tiracolo. E o touro indo-se a ele, não fez D. João mais mudança que despir o capuz e pô-lo no ombro; e o touro chegando, lançou-lho e, arrancando da espada, de um só golpe que lhe deu lhe cortou o pescoço apartado do corpo. E, alimpando a espada no touro, tomou o capuz e foi-se à rainha sem perder os pantufos (4). E a rainha disse-lhe:

- Boa sorte fizestes, embaixador!
E ele respondeu-lhe:
- Senhora, outro tanto faria qualquer português.»

(1) D. João de Sousa: foi senhor de Sagres e Nisa e guarda-mor de D. Manuel. Acompanhou o pai, Rui de Sousa, na missão a Castela para negociar o Tratado de Tordesilhas. Foi nessa ocasião que se passou o episódio da tourada, ao qual também fazem referência Garcia de Resende na Crónica de D. João II, cap. 96 [pude confirmar e na verdade é o LXXX], e D. António Caetano de Sousa na História Genealógica, t. XII, parte II, cap. XXIV; a versão de Garcia de Resende é diferente: D. João era um dos toureiros a cavalo que tomavam parte na corrida. Rui de Sousa, o pai de D. João, foi homem da confiança de D João II e de D. Manuel e gozou de um extraordinário prestígio na sua época: «foi o maior homem daqueles tempos», diz dele o Nobiliário das Famílias de Portugal, Título Sousas.

(2) Muito manhoso: com muitas qualidades ou habilidade.
(3) Gineta: maneira de montar, com estribos curtos, arções muito altos e freio diferente do que se usava na brida.
(4) Sem perder os pantufos: sem correr,isto é, com passo normal.»
Texto e notas: Ditos Portugueses Dignos de Memória: História íntima do século XVI anotada e comentada por José H. Saraiva, 3ª ed., Mem Martins, Europa-América, 1997, 284 (p. 115).

Mark Boyle: Há um ano sem dinheiro


Vive há um ano sem dinheiro, numa roullote, come o que cultiva e alimenta o computador a energia solar
(foto Direitos reservados)
HELENA NORTE
 
Viver sem dinheiro é possível. Mark Boyle quer prová-lo e, há mais de um ano, traçou um audacioso plano que, apesar de alguns reveses, manteve.

Inspirado em Gandhi, este irlandês de 29 anos abraçou uma causa - abolir o dinheiro como base de uma sociedade mais generosa e menos consumista.
Vive numa roulotte, junto a zona de cultivo biológico em Bristol (Inglaterra), come o que produz, troca ou recebe, cozinha numa fogueira e alimenta a energia solar o telemóvel (que só recebe chamadas) e o computador. Acredita na partilha, na parcimónia, na interdependência.
O ponto de viragem aconteceu em 2001, quando Mark, então estudante de Economia, viu o filme "Gandhi". A vida do pacifista indiano impactou-o de tal forma que decidiu ser a mudança que deseja ver no Mundo.
Despertou para as questões ambientais e resolveu ganhar dinheiro de forma ecologicamente correcta. Criou uma empresa de produtos orgânicos e o negócio corria bem, mas Mark continuava insatisfeito. "Dei-me conta de que nem mesmo negócios sustentáveis conseguem mudar as coisas", conta no seu blogue (http://www.justfortheloveofit.org/blog).
Na procura do seu próprio caminho, descobriu que não bastava diagnosticar os problemas. Era preciso chegar às causas. Intervir. "Decidi tornar-me um homeopata social, um pró-activista, e investigar as raízes dos sintomas", explica Mark. Nova vida, novo nome. Escolheu Saoirse, palavra em gaélico que significa Liberdade. O passo seguinte foi fundar uma comunidade virtual para troca solidária de conhecimentos e serviços, a Freeconomy.
O princípio é que todos têm algo que podem oferecer, seja uma explicação, um corte de cabelo - um dos serviços mais trocados -, uma reparação. Em quase dois anos, cerca de 15 mil pessoas de 118 países inscreveram-se no Freeconomy. No ano passado, tentou ir a pé até à terra natal do seu mentor, mas ficou por França. Regressou à roullotte e continua a viver o seu sonho de um mundo sem dinheiro.

in... Jornal de Noticias

domingo, 10 de janeiro de 2010

ETA: Sócrates congratula-se com êxito de "operação conjunta"


ETA: Sócrates congratula-se com êxito de "operação conjunta


O primeiro-ministro reagiu ao início da tarde deste domingo à operação conjunta das guardas ibéricas que culminou na detenção de um casal espanhol em Torre de Moncorvo, suspeito de pertencer à ETA.
José Sócrates disse à SIC que a operação 'correu muito bem' e disse estar a aguardar por informações 'mais fidedignas' do Ministério da Administração Interna português sobre o assunto.
'É motivo de nos congratularmos', disse o dirigente socialista à margem da adjudicação da concessão do Pinhal Interior pelo consórcio da Mota-Engil, que decorreu este domingo em Leiria. Sócrates realçou a importância da acção conjunta entre Portugal e Espanha para 'prevenir o terrorismo'


in Correio da Manhã de 10.01.2010
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Contenta-se com pouco este senhor que continua a ser subalterno de Zapatero em tudo o que os castelhanos lhe impõem. Está a meter-se em assuntos que não lhe dizem directamente respeito, visto que os nacionalistas bascos que aspiram a uma independência para a sua pátria, como os demais povos da ibéria que estão sob o jugo de Madrid, lutam contra a ocupação da sua terra, sendo ao longo dos séculos presos, torturados e executados sem apelo nem agravo pelos castelhanos. A dita “Espanha” é como uma Jugoslávia dos nossos dias em que as autonomias fervilham e o poder centralizador não os deixa pronunciar livremente em referendo que os possa conduzir às respectivas independências. A politica espanhola é anular os povos, acastelhanizando as mais diversas regiões para poder manobrar a seu belo prazer. O sr. Sócrates que desempenhe as suas funções com a dignidade que deve ter, exigindo de Espanha a devolução de Olivença e do seu termo à soberania portuguesa, cujos 750 km2 continuam ilegalmente ocupados pela potência ocupante. Olivença é de direito terra portuguesa e estes governantes são uma nódoa que nada contribuem para resolver a questão, deixando-a arrastar por tempo indefenido. Agora que dois membros da ETA foram presos em solo português está já a preparar o caminho para os entregar ao poder espanhol onde os presos políticos são sujeitos a tortura e apodrecem nas prisões do opressor. Afinal vivemos numa democracia ou continuamos na prática a ser governados por políticos com ideias totalitárias?... A ditadura franquista que executou milhões de pessoas, entre as quais milhares de oliventinos e os tentou assimilar sem o mínimo respeito pela sua vida e cultura de cidadãos portugueses, ainda continua a ter seguidores fiéis na aniquilação de outros povos da península ibérica em pleno século XXI e ainda por cima integrados numa Comunidade Europeia que se arvora como uma sociedade democrática. Liberdade para os povos peninsulares!

Texto:  José C. Ramalho

Oquestrada - Oxalá te veja


Frio?... Neve?... Não se nota muito!...


Margerita Waldmann

História do concelho do Montijo


A história do concelho do Montijo está intensamente ligada ao rio Tejo já que uma grande área do seu território é por ele delimitada.
As favoráveis condições naturais terão estado na origem da presença humana desde o Paleolítico; assim o comprovam testemunhos arqueológicos encontrados na região.
Na génese do concelho de Aldeia Galega está o concelho mais amplo do Ribatejo, remontando este ao séc. XII. A sua área integrava duas freguesias, Santa Maria de Sabonha e São Lourenço de Alhos Vedros, no séc. XIV elevadas a concelho. Sabonha virá, no séc. XV, a dar origem aos concelhos de Alcochete e de Aldeia Galega do Ribatejo, sendo este o único a conservar o topónimo original.
Os habitantes das localidades de Sarilhos, Lançada, Aldeia Galega, Montijo, Samouco e Alcochete dedicavam-se à pesca, à exploração de salinas e à produção de vinho. O abastecimento de vinho, sal e frutas, quer a Lisboa, quer aos navios fundeados no Tejo, estava na origem do intenso movimento de embarcações, nomeadamente, barcas e batéis A barca de Aldeia Galega destinava-se, especificamente, ao transporte de lenha.
Durante a regência de D. Pedro (1439-1446), sendo Mestre da Ordem de Santiago seu irmão, o infante D. João, foi construída uma estacada, obra de engenharia importante para a época, que impediu o assoreamento do rio, tornando mais fácil a navegação fluvial para Aldeia Galega.
O desenvolvimento da localidade justificou a atribuição de foral em 15 de Setembro de 1514 pelo rei D. Manuel I; desconhecendo-se a razão, o mesmo monarca voltou a atribuir novo foral em 17 de Janeiro de 1515, desta vez um único diploma para duas vilas: Aldeia Galega do Ribatejo e Alcochete.
Em 1533 o Correio-Mor estabeleceu em Aldeia Galega a sede principal da Posta do Sul, serviço que assegurava o transporte de correspondência. Desde então começaram a passar inúmeros viajantes, vindos de Lisboa, com destino ao Sul ou a Espanha.
Em 1574 foram redefinidos os limites dos concelhos de Aldeia Galega e de Alcochete.
Em Dezembro de 1640 o Duque de Bragança, futuro D. João IV, no caminho para Lisboa, onde viria a ser aclamado rei, pernoitou em Aldeia Galega. Outros monarcas também por aqui haveriam de passar: D. João V, D. João VI, ainda príncipe herdeiro, D. Maria II.
No decorrer do séc. XVIII assistiu-se a uma mudança gradual da economia local: a preponderância das actividades ligadas ao rio e à agricultura cedeu lugar às actividades comerciais e industriais, nomeadamente, ao comércio e transformação de gado suíno. Paralelamente fixaram-se inúmeros alentejanos em Aldeia Galega.
A importância da sua situação geográfica, como via de ligação entre Lisboa, o Sul do país e a fronteira, é evidenciada num Decreto emitido durante o reinado de D. Maria II, que definia, no contexto das necessidades de reparação das estradas do país, como prioritária a estrada de Aldeia Galega do Ribatejo ao Caia e de Lisboa ao Porto, pela sua relevância para a economia do país.
Face ao assoreamento do rio e procurando garantir o fácil movimento de pessoas, que agora a Mala Posta também assegurava, viaturas e mercadorias, em 1852 o Governo mandou construir uma ponte – cais de 315 metros de comprimento.
Na segunda metade de Oitocentos, nas férteis terras de Aldeia Galega, cresciam cereais, vinho e frutas, os pinhais abundavam e rio dava peixe, marisco e sal. A sua economia agrícola e industrial, aliada à já referida situação geográfica – ponto de escala de quem pretendia alcançar a capital do reino, vindo do Sul ou da fronteira, ou de quem de Lisboa viajava para aquelas direcções -, faziam de Aldeia Galega do Ribatejo um importante entreposto comercial.
A construção do caminho-de-ferro do Sul e Sueste, ao desviar o fluxo de passageiros e mercadorias, conduziu a uma recessão económica na localidade que foi ultrapassada com o incremento do comércio e transformação de gado suíno. No início do séc. XX e até à década de 50, assistiu-se à expansão desta actividade, assim como da indústria corticeira. Paralelamente a este apogeu económico, a vila de Montijo viu surgirem importantes infraestruturas e equipamentos: a praça de touros, o mercado municipal, o cinema-teatro, a cadeia comarcã, o palácio da justiça, a reformulação do parque municipal Carlos Loureiro.
Em 6 de Julho de 1930, pelo Decreto nº 18434, a vila e o concelho de Aldeia Galega do Ribatejo passaram a denominar-se Montijo. À época era constituído por três freguesias: Montijo, Sarilhos Grandes e Canha. Em 1957 foi criada, pelo Decreto-Lei nº 41320, de 14 de Outubro, a freguesia de Santo Isidro de Pegões.
Em 14 de Agosto de 1985, com a Lei nº 32, a vila de Montijo foi elevada à categoria de cidade. Nesse mesmo ano foram criadas as freguesias de Atalaia, Pegões e Alto Estanqueiro-Jardia. Em 1989 a Lei nº 34, de 24 de Agosto, publica a criação da freguesia de Afonsoeiro.

Fonte CMM

sábado, 9 de janeiro de 2010

Neste país de sacanas



Neste país de sacanas,
De doutores e engenheiros
É republica das bananas,
Governada por rafeiros.
Portugal bateu no fundo,
Salvo melhor opinião
Não há país mais fecundo,
Para semear a confusão.
Aqui reinam os compadrios,
Políticos são corrompidos
Protegem ciganos e vadios
Com subsídios garantidos
Quem trabalha está lixado
Tem que pagar e não bufar
Tantas receitas para o Estado
E os mafiosos a esbanjar.
Vivemos em democracia,
Mas temos a recordação
Que antigamente se dizia
Que tud’ era a bem da nação.
Foi no tempo dos ditadores
Que dominaram Portugal
Mas afinal estes senhores
São pouco diferentes afinal.
Apenas querem mordomias
E o seu tacho garantido
Vamos deixar de fantasias;
O povo é que está fodido.


José C. Ramalho - Direitos de Autor Reservados / SPA




Ferreira Gullar


Nascido em São Luis do Maranhão, em 1930, Ferreira Gullar, procurou apontar em sua obra a problemática da vida política e social do homem brasileiro.

De uma forma precisa e profundamente poética traçou rumos e participou ativamente das mudanças políticas e sociais brasileiras, o que lhe levou à prisão juntamente com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968 e posteriormente ao exílio em 1971 .
Poeta, crítico, teatrólogo e intelectual, Ferreira Gullar entra para a história da literatura como um dos maiores expoentes e influenciadores de toda uma geração de artistas dos mais diversos segmentos das artes brasileiras.
in... "O Poema"

PRIMEIROS ANOS

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
Gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.

(Buenos Aires, 1975)

Fado português - José Régio


O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

José Régio
Fado, 1941

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

E do beijo, insaciável, partilhado…


Sinto aquele prazer suave, prolongado,
Das tuas carícias meigas e gulosas
Das tuas palavras doces, deleitosas
E do beijo, insaciável, partilhado…
Adoro sentir esse teu corpo suado,
Teus seios na minha boca roçando
Sentir-te intensa e deslumbrante,
Como a mulher mais fascinante,
Na hora que nos estamos amando.

José C. Ramalho - Direitos de Autor Reservados / SPA

Zeca Afonso - Canta camarada


quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Poeminha para saudade‏




TU... quando se insinuas e revela em dizeres,
Invade, povoa, alitera minha emoção
Dá-se em letras longas a uma rima que me cabe
Faz-se trecho completo em minha imaginação



E eu que te leio, a fundo e muito atenta
Traço as rimas do poema que te dou
Pra que tu cantes e em voz alta anuncies
Uma saudade, que nem foi, mas que ficou



E que assim, em dias breves se recordes
Das vezes todas que te dei meu coração
Alvoraçado por um desejo tão intenso
De estar contigo e ter o afago da tua mão



Que nestes dias tu me encontres na saudade
Das entrelinhas dos versos todos que te fiz
Quando terna, intensa e entregue fui realidade
Num tempo, em que te sonhava e era feliz



[Usy – Poema Comum – 06.01.10]

Ne me quite pas - Jacques Brel


Fala do Homem Nascido


Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.

António Gedeão

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Foi navegador lusitano... tornou-se filho do vento


Foi navegador lusitano,
Foi poeta e trovador;
Navegou no mar oceano,
E compôs versos de amor.
Tornou-se filho do vento,
Mas continuou a cantar;
E nem por um só momento,
Tua expressão foi olvidar.
Foste a musa celebrada,
Em cada verso que brotou;
Foste a melodia entoada,
Que todo o mundo encantou.
Enquanto o mundo existir,
Surgirão novas canções;
Será motivo para sorrir,
E alegrar os corações.
E o lusitano navegador,
Contigo no pensamento;
Assina o poema como autor,
Agora que é filho do vento.

José C. Ramalho - Direitos de Autor Reservados / SPA

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dubai inaugura a torre mais alta do mundo


Não dês esmola a santinhos


MOTE

Não dês esmola a santinhos,
Se queres ser bom cidadão;
Dá antes aos pobrezinhos
Uma fatia de pão.


GLOSAS
Não dês, porque a padralhada
Pega nas tuas esmolinhas
E compra frangos e galinhas
Para comer de tomatada;
E os santos não provam nada,
Nem o cheiro, coitadinhos...
Os padres bebem bons vinhos
Por taças finas, bonitas...
Se elas são p'ra parasitas,
Não dês esmola a santinhos.



Missas não mandes dizer,
Nem lhes faças mais promessas
E nem mandes armar essas
Se um dia alguém te morrer.
Não dês nada que fazer
Ao padre e ao sacristão,
A ver para onde eles vão...
Trabalhar, não, com certeza.
Dá sempre esmola à pobreza
Se queres ser bom cidadão.


Tu não vês que aquela gente
Chega até a fingir que chora,
Afirmando o que ignora,
Assim descaradamente!?...
Arranjam voz comovente
Para iludir os parvinhos
E fazem-se muito mansinhos,
Que é o seu modo de mamar;
Portanto, o que lhe hás-de dar,

Dá antes aos pobrezinhos.

Lembra-te o que, à sexta-feira,
O sacristão — o mariola! —
Diz, quando pede a esmola:
«Isto é p'rà ajuda da cera»...
Já poucos caem na asneira,
Mas em tempos que lá vão,
Juntavam grande porção
De dinheiro, em prata e cobre,
E não davam a um pobre
Uma fatia de pão.


António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

Zeca Afonso - Os vampiros


Meu vício, o sentimento


Curvo-me ao ermo
desta minha vida
E bebo meu vício,
todo em goles lentos
E por este sentimento
que me dá guarida
Dispo-me inteira
em todos os momentos.


Se ousar sonhar
ou me querer ainda
Desejando aquele
a quem quero tanto
Espero encantada
em um dia que finda
Estar em seus braços
e enxugar meu pranto.


[Usy – Poema Comum - Verão de 2010 ]

Amor sonhado


Sonho é ter um amor deste jeito:
De olhos e coração cheios.
Encantado pela vida,
Excitado no corpo e na alma,
Vivendo plenamente,
Caminhando comigo,
Rompendo os percalços,
Contemplando paisagens,
Revivendo as lembranças...
Quero-o meu,
Em momentos eternos,
E infindáveis instantes.
Plantando alegrias
(em meu coração),
E colhendo risos.
Quero-o assim:
Sabedoria,
Determinação,
Sonhador de grandezas...
E o quero meu apenas,
De minha vida apenas,
Do meu ciúme apenas,
Do meu amor apenas...


[Usy – Amor sonhado]

O Fascismo em Portugal


Juan Muñoz

Towards the Shadow, 1998
Private collection © The estate of Juan Muñoz
Photo: Tate
Evasões de presos políticos durante o regime salazarista, houve-os desde a criação, em 1933 da polícia política – PVDE -, e até 1961, quando, na sequência das ousadas fugas colectivas de Peniche e de Caxias, a PIDE e os Serviços Prisionais colocaram “trancas à porta”. Antes de 1945, fugiram do forte de Peniche, situado junto ao mar, Francisco Horta Catarino e José dos Santos Rocha, em 2 de Maio de 1936, bem como Álvaro Marques Saraiva e António Branco, em 19 de Julho de 1938. Após a criação da PIDE, as fugas de Peniche tornaram-se mais difíceis. Mesmo assim, conseguira escapar desse forte Joaquim Pinto Portela, em 1946, e, na noite de 2 para 3 de Novembro de 1950, dois funcionários do PCP, Jaime Serra e Francisco Miguel Duarte, embora o segundo tivesse sido recapturado. Três anos depois, foi a vez de se evadir, na madrugada de 19 de Dezembro de 1954, o dirigente comunista António Dias Lourenço. Tratou-se de uma fuga muito arrojada, pois envolveu serrar uma abertura na almofada inferior da porta da cela de «segredo» onde ele estava encarcerado, de castigado, descer os vinte metros até ao mar, através de uma corda a partir de três mantas e nadar até terra.

Foi porém a fuga colectiva de Peniche, que ocorreu há 50 anos, em 3 de Janeiro de 1960, que foi a mais importante, audaciosa e bem sucedida evasão. Com a fuga colectiva de Caxias, ocorrida no ano seguinte, com outros 8 elementos do PCP, a de Peniche ficou na memória e na história do PCP, mas também da oposição ao regime, como uma estrondosa vitória desse partido contra o governo ditatorial e a PIDE, em particular. Conseguiram então escapar da fortaleza os dirigente do PCP Jaime Serra, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, Álvaro Cunhal, Guilherme da Costa Carvalho, José Carlos, Carlos Costa, Rogério de Carvalho Joaquim Gomes dos Santos, Francisco Martins Rodrigues, bem como José Augusto Jorge Alves, um soldado da GNR de serviço em Peniche, que facilitou a fuga..
Jaime Serra relatou como decorreu a evasão. Contou que as condições de segurança do forte de Peniche tinham sido então reforçadas e que os «presos considerados “mais perigosos” haviam sido concentrados no terceiro piso, a sua maioria em celas individuais de alta segurança». Era ali que se encontrava Álvaro Cunhal e os três novos “hóspedes” acabados de chegar em Janeiro de 1959, Joaquim Gomes, Pedro Soares e o próprio Jaime Serra. Passado o chamado “período de observação”, começaram a ter recreio em comum e formaram, com outros, «um organismo restrito com a incumbência exclusiva de estudar sistematicamente todas as hipóteses de fuga». Numa «dada altura, por meados de 1959, o camarada Joaquim Gomes conseguiu meter conversa através das grades da janela da sua cela, com o GNR que viria a ser a chave mestra da fuga, o soldado Jorge Alves», concluindo que este era «uma pessoa revoltada».



Por outro lado - acrescentou Serra -, em «virtude de um comportamento calculado, na relação com os carcereiros», os presos haviam «conquistado nesse período uma série de “regalias”», que aumentaram as possibilidades de contacto entre os presos. Dessa forma, nos «últimos meses de 1959, o plano de fuga avançou rapidamente na sua concretização graças ao trabalho desenvolvido no exterior pelo Secretariado do Comité Central, constituído então pelos camaradas Octávio Pato, Joaquim Pires Jorge e António Dias Lourenço». Leia-se a descrição de Serra da fase seguinte da fuga:
«A segunda fase da operação desenrolou-se no exterior do bloco prisional, sob a responsabilidade do guarda Jorge Alves.
Como estava previsto, juntamente com o camarada Álvaro Cunhal, constituímos o primeiro grupo a percorrer, sob a capa do guarda Jorge Alves, a distância que nos separava de uma horta existente num terreno subjacente à muralha da Fortaleza por onde íamos descer.
Tendo alcançado o torreão da fortaleza, tratámos de amarrar solidamente a uma fresta desse torreão uma ponta da “corda” de tiras de lençol por onde descemos.A partir daí tudo foi fácil. Saltámos o último obstáculo, o muro exterior do fosso, e encontrámo-nos de imediato a atravessar o “largo do jogo da bola” misturados com muitos populares que vinham de assistir ao jogo de futebol, discutindo em voz alta o seu resultado. Chegámos assim ao local de encontro previamente marcado, onde nos esperava um camarada conhecido, ao volante do seu carro. Ali aguardámos a chegada dos outros camaradas fugitivos que, segundo o combinado, deveriam participar connosco na retirada, entre eles o Joaquim Gomes e o guarda Jorge Alves» (Jaime Serra, Eles Têm o Direito de Saber, Ed. Avante!, 1997).
A fuga do forte de Peniche foi profundamente analisada, nos escalões mais altos do PCP, num trabalho de crítica e procura das «razões do êxito» e das «deficiências verificadas». Da discussão resultou um documento da Comissão Política do CC desse partido, de Maio de 1960, onde eram consideradas seis «razões» para o «êxito»: a cuidadosa e demorada preparação e organização; a coordenação da actividade no interior e exterior; a concentração de preocupações, recursos e quadros; a preparação no interior, na base da centralização da responsabilidade num organismo restrito, harmonizada com a prática de trabalho colectivo e de discussão democrática; coragem, serenidade e disciplina e os sentimentos antifascistas do povo português. Quanto às deficiências, foram apontadas três, verificadas no interior da cadeia, e seis, que ocorreram no exterior. Entre estas, contaram-se a perda de documentação, antes da fuga, cuja apreensão pela PIDE poderia ter inutilizado todos os esforços; falta do aviso combinado fixando a data; marcação de um sítio em lugar diferente do combinado e execução de outro sítio também em lugar diferente do combinado e desconhecimento do trajecto e insuficiente estudo dos troços, que provocaram demoras na retirada (Arquivo do Tribunal da Boa Hora no ANTT, proc. 92/62, Octávio Paro e Albina Fernandes, caixa 703, 2.º juízo, volume 20, fl. 1071, «A fuga do forte Peniche»).
José Dias Coelho, funcionário do PCP que viria a ser assassinado pela PIDE, no ano seguinte, afirmou que, «depois da fuga, o capitão Neves Graça foi demitido do cargo de director da PIDE, e substituído pelo tenente-coronel Homero de Matos», dando a entender que a demissão foi consequência directa da evasão. É um facto que o período de 1959/1960, foi marcado por «dois factos sensacionais», que, segundo Mário Soares vieram «destruir o “mito” de infalibilidade da PIDE, demonstrando tratar-se de uma organização fundamentalmente “burocrática”, um colosso com pés de barro, que só descobre, afinal, aquilo que os presos lhe dizem, mediante “confissões», as mais das vezes arrancadas por violência. Os dois factos foram as fugas do capitão Henrique Galvão, do hospital de Santa Maria, e dos dez dirigentes do PCP, do Forte de Peniche, «dois golpes» com os quais «o prestígio da PIDE ficou singularmente abalado», tendo sido «indescritível a alegria que qualquer deles provocou no comum da população, mesmo entre a gente não politizada». Depois, «duas outras fugas haviam de comprovar este acerto»: a «proeza invulgar de um grupo de dirigentes do partido comunista, que conseguiu fugir do Forte de Caxias, prisão privativa da PIDE ultra-controlada, aproveitando um carro blindado de Salazar - facto que ocorreu em Dezembro de 1961; e, em 1969, a fuga da prisão da PIDE, do Porto, do dirigente revolucionário do LUAR, Hermínio da Palma Inácio (Mário Soares, Portugal Amordaçado, Arcádia, 1974).


A fuga que derrotou Salazar e a PIDE, há 50 anos

Irene Pimentel

domingo, 3 de janeiro de 2010

Assim vai a democracia em Portugal


O Bloco de Esquerda classificou hoje o processo movido a Francisco Louçã por Paulo Teixeira Pinto, ex-presidente do Conselho de Administração do BCP, como "uma ameaça sem significado e inaceitável, que pretende limitar a liberdade de expressão".

Paulo Teixeira Pinto apresentou uma queixa-crime contra o coordenador do Bloco de Esquerda por este ter comentado, no dia 5 de Outubro de 2009, que uma iniciativa da Causa Real - o desembarque no Terreiro do Paço e um cortejo nocturno aos gritos de "Viva a Monarquia" - era uma acção "patusca" promovida por um "banqueiro milionário" associado ao período do colapso da liderança do BCP.
Segundo referiu fonte do BE à agência Lusa, a queixa-crime contra Francisco Louçã - por "difamação e calúnia" - deu entrada no "final do ano" passado na Assembleia da República.
O Bloco frisa em comunicado que "o próprio BCP já identificou em comunicação ao mercado de valores perdas no valor de centenas de milhões de euros referente ao período de administração de Jardim Gonçalves e de Teixeira Pinto", assinalando ainda que Teixeira Pinto "preside agora à Causa Real, um grupo de saudosistas monárquicos sem expressão política relevante".
in... Diário de Noticias



Ser Benfquista - Luis Piçarra


Sou do Benfica
E isso me envaidece
Tenho a genica
Que a qualquer engrandece


Sou de um clube lutador
Que na luta com fervor
Nunca encontra rival
Neste nosso Portugal


Ser Benfiquista
é ter na alma a chama imensa
que nos conquista
e leva à alma a luz intensa
do sol que lá no céu
risonho vem beijar
com orgulho muito seu
as camisolas berrantes
que nos campos a vibrar
são papoilas saltitantes


Luís Piçarra (Intérprete)


Paulino Gomes Júnior era o director do jornal do clube. E também ele queria dar ao Benfica uma coisa especial. Uma canção, por exemplo. Uma canção que entrasse no ouvido e no coração e servisse de encorajamento para a caminhada que havia pela frente. Escreveu a letra, a música, e ensaiou tudo a preceito com Luís Piçarra, que ofereceu a sua voz sem par. A estreia em público ficou aprazada para a noite de 16 de Abril, no Pavilhão dos Desportos, por ocasião de um sarau com a receita a reverter pró-Estádio. Seis mil benfiquistas responderam à chamada, enchendo o recinto. A canção de Paulino Gomes Júnior e de Luís Piçarra seria a surpresa da noite. Desconhecendo como o público iria reagir, autor e intérprete aceitaram que a sua actuação acontecesse, discretamente, entre o número musical da artista paraguaia Sarita Antuñez, vedeta do Teatro Apolo, e a exibição do conjunto da «dinâmica e revolucionária» Alzirinha Camargo. Nervosos, os dois homens subiram ao palco. Paulino Gomes Júnior dirigiu-se ao piano, Piçarra ao microfone. A assistência agitou-se naquela desconfiança que sempre suscita a apresentação de uma novidade. Mas quando Piçarra entoou as notas finais de Ser Benfiquista a casa veio abaixo.
Conta o jornal O Benfica o que se passou: «O sarau acabou por provocar manifestações clubistas como raras vezes temos visto. Vibrantes, apoteóticas, plenas de euforia, como foi a primeira audição de Ser Benfiquista, culminando em êxito tão clamoroso que o público ovacionou longamente, de pé, autor e intérprete. O próprio maestro, Vítor Bonjour, cederia a batuta ao dr. Paulino Gomes Júnior para que este dirigisse a orquestra na repetição do número.»
Nasceu, assim, inspirada pela construção do Estádio da Luz, a canção que ainda hoje se ouve quando o Benfica entra no seu campo. A emoção dessa noite de estreia, há quase meio século, contagiou até os polícias de serviço. «Era de 363$00 a importância da folha de serviço dos guardas destacados para o pavilhão. Tal quantia, porém, foi entregue ao clube pelo senhor Domingos Ribeiro, polícia municipal que, em nome dos seus colegas, afirmou prescindirem dela com muita satisfação, dado o fim a que se destinava – engrossar a lista de dádivas pró-Estádio do Sport Lisboa e Benfica.»

sábado, 2 de janeiro de 2010

Massacre dos judeus em Lisboa 1506


Massacre de Lisboa de 1506


Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Uma das duas únicas gravuras sobreviventes ao Terramoto de Lisboa 1755 e ao incêndio da Torre do Tombo: “Von dem Christeliche – Streyt, kürtzlich geschehe – jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona – ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri – sten oder juden, von wegen des gecreutzigisten [sic] got.” (Da Contenda Cristã, que recentemente teve lugar em Lisboa, capital de Portugal, entre cristãos e cristãos-novos ou judeus, por causa do Deus Crucificado”)No Massacre de Lisboa de 1506 - também conhecido como Progrom de Lisboa ou Matança da Páscoa de 1506 - uma multidão movida pelo fanatismo religioso perseguiu, violou, torturou e matou centenas de pessoas, acusadas de serem judias. Isto sucedeu antes do início da Inquisição e nove anos depois da conversão forçada dos judeus em Portugal, em 1497, durante o reinado de D. Manuel I.
Cerca de 93 mil judeus se refugiaram em Portugal nos anos que se seguiram à sua expulsão de Espanha, pelos reis católicos, em 1492. D. Manuel I se mostrara mais tolerante para com a comunidade judaica, mas, sob a pressão de Espanha, também em Portugal, a partir de 1497, os judeus foram forçados a converter-se.
A historiografia situa o início da matança no Mosteiro de São Domingos (Santa Justa), no dia 19 de abril de 1506, um domingo, quando os fiéis rezavam pelo fim da seca e da peste que tomavam Portugal, e alguém jurou ter visto no altar o rosto de Cristo iluminado — fenômeno que, para os católicos presentes, só poderia ser interpretado como uma mensagem de misericórdia do Messias - um milagre.
Um cristão-novo que também participava da missa tentou explicar que a luz era apenas o reflexo do sol, mas foi calado pela multidão, que o espancou até a morte.
A partir daí, os judeus da cidade que anteriormente já eram vistos com desconfiança tornaram-se o bode expiatório da seca, da fome e da peste: três dias de massacre se sucederam, incitados por frades dominicanos que prometiam absolvição dos pecados dos últimos 100 dias para quem matasse os "hereges",e que juntaram um grupo de mais de quinhentas pessoas incluindo marinheiros da Holanda, da Zelândia e de outras terras com as suas promessas. A corte encontrava-se em Abrantes - onde se instalara para fugir à peste - quando o massacre começou. D. Manuel I tinha-se posto a caminho de Beja, para visitar a mãe. Terá sido avisado dos acontecimentos em Avis, logo mandando magistrados para tentar pôr fim ao banho de sangue. Entretanto, mesmo as poucas autoridades presentes foram postas em causa e, em alguns casos, obrigadas a fugir.
Como consequência, homens, mulheres e crianças foram torturados, massacrados, violados e queimados em fogueiras improvisadas no Rossio. Os judeus foram acusados entre outros "males", de deicídio e de serem a causa da profunda seca e da peste que assolava o país. A matança durou três dias - de 19 a 21 de Abril, na Semana Santa de 1506 - e só acabou quando foi morto um cristão-novo que era escudeiro do rei, João Rodrigues Mascarenhas, e as tropas reais afinal chegaram para restaurar a ordem.
D. Manuel I penalizou os envolvidos, confiscando-lhes os bens, e os dominicanos instigadores foram condenados à morte. Há também indícios de que o Convento de S. Domingos (da Baixa) teria sido fechado durante oito anos.
No seguimento do massacre, do clima de crescente anti-semitismo em Portugal e do estabelecimento do Tribunal do Santo Ofício — que entrou em funcionamento em 1540, perdurando até 1821 — muitas famílias judaicas fugiram ou foram expulsas do país, tendo como destino principal os Países Baixos e secundariamente, França, Turquia e Brasil, entre outros.
Mesmo expulsos da Península Ibérica, os judeus só podiam deixar Portugal mediante o pagamento de "resgate" à Coroa. No processo de emigração, os judeus abandonavam suas propriedades ou as vendiam por preços irrisórios e viajavam apenas com a bagagem que conseguissem carregar.

Xeque árabe constrói o maior carro/casa do mundo